ORIGENS DO DIREITO CANADENSE
O direito inglês e o Código Napoleônico
O sistema jurídico canadense atual é derivado de
vários sistemas europeus trazidos a este continente durante
os séculos XVII e XVIII por exploradores e colonizadores.
Ainda que os povos indígenas encontrados pelos europeus
possuíssem seus próprios sistemas jurídicos e
controles sociais, com o passar dos anos, as culturas imigrantes
começaram a prevalecer. Depois da vitória dos
ingleses sobre os franceses no Quebec em 1759, o país passou
a ser regido quase que exclusivamente pelo direito inglês.
Com exceção do Quebec, onde o direito civil
está baseado no Código Napoleônico
francês, o direito civil e penal em vigor no Canadá
está baseado nas leis e no direito consuetudinário
inglês.
O direito consuetudinário, desenvolvido na
Grã-Bretanha após a conquista normanda, baseava-se na
decisões de juízes dos tribunais reais. É
chamado de lei feita por juízes pois é um sistema de
regras baseado em "precedentes" (jurisprudência). Sempre que
um juiz toma uma decisão que será obedecida
legalmente, essa decisão torna-se um precedente: um regra
que orientará os juízes em decisões
subseqüentes de casos semelhantes. O direito
consuetudinário é singular no mundo porque ele
não pode ser encontrado em nenhum "código" ou
"legislação"; baseia-se somente em decisões
anteriores. Entretanto, isto também o torna flexível
e adaptável à evolução da
sociedade.
O direito civil possui uma tradição bem diferente.
Baseia-se no direito romano, que foi codificado pelo imperador
romano Justiniano. O direito na Roma antiga encontrava-se disperso
em livros, regulamentos e proclamações. Justiniano
ordenou os juristas a reunirem toda a legislação em
um único código para evitar confusão. Desde
então, o direito civil tem sido associado ao "código
civil", que contém praticamente todo o direito privado. O
código civil do Quebec entrou em vigor em 1866, pouco antes
da formação da Confederação, e
após passar por modificações
periódicas, foi revisado recentemente. Como todos os
códigos civis, como o Código Napoleônico na
França, contém uma série abrangente de regras,
muitas das quais são princípios amplos e gerais que
permitem tratar de qualquer conflito que possa surgir. Ao
contrário do que ocorre nos tribunais
consuetudinários, no direito romano, os tribunais baseiam-se
primeiramente no Código e, em seguida, examinam
decisões anteriores para obter uniformidade nas
decisões.
Quando se discute o direito dos povos aborígines do
Canadá, é necessário levar-se em
consideração os direitos aborígines e os
direitos derivados de tratados protegidos pela
Constituição. Os direitos aborígines
são aqueles relacionados à ocupação e
uso histórico das terras pelos povos aborígines; os
direitos derivados de tratados são aqueles definidos nos
tratados feitos entre a Coroa e um grupo aborígine
específico.
Reforma jurídica: um ciclo sem fim
Muitas de nossas leis foram herdadas das tradições
legais européias. No entanto, conforme a sociedade cresce e
se desenvolve, ela não pode fiar-se inteiramente em
tradições. Às vezes, surge a necessidade
premente de novas leis ou de se modificar leis antigas, e o direito
consuetudinário e o civil podem evoluir muito vagarosamente
para atender essa necessidade. Conseqüentemente, mesmo que o
governo proceda às reformas necessárias para
acompanhar as mudanças éticas e morais, a sociedade
continua a evoluir rapidamente, obrigando os legisladores a
entrarem em um ciclo contínuo de reformas
jurídicas.
A adoção de novas regras jurídicas: a
legislação
Os países democráticos geralmente possuem um
organismo chamado de "assembléia legislativa" ou
"parlamento", que tem o poder de criar novas leis ou modificar leis
antigas. Em termos de estrutura política, o Canadá
é uma federação: uma união de diversas
províncias com um governo central. Assim sendo, existe um
parlamento em Ottawa que cria leis para todo o Canadá e uma
assembléia legislativa em cada província e
território para tratar de assuntos locais. Os textos
legislativos criados em qualquer um dos níveis são
chamadas de "leis". Quando o Parlamento ou uma assembléia
provincial aprova uma lei, essa lei substitui a lei
consuetudinária que tratava do mesmo assunto. No Quebec,
existem várias leis criadas para lidar com problemas
específicos que não são tratados no
Código Civil.
A adoção de leis através de
legislação é um processo complicado. Imagine,
por exemplo, que o governo federal queira criar uma lei que ajude a
controlar a poluição. Primeiramente, se pedirá
aos ministros do governo ou altos funcionários que estudem o
problema cuidadosamente e determinem o modo como uma lei federal
poderia tratar do problema da poluição. Em seguida,
seria proposto um anteprojeto de lei. Esse texto deverá ser
aprovado pelo Gabinete, que é composto por deputados
escolhidos pelo primeiro-ministro. Essa versão será
então apresentada ao Parlamento como um "projeto de lei" que
será estudado e discutido por seus membros. Os projetos de
lei só se tornam lei se aprovados pela maioria da
Câmara dos Comuns e do Senado, e sancionados pelo governador
geral em nome da Rainha.
Um processo semelhante é usado para a
aprovação de leis nas províncias. As leis
aprovadas pelas assembléias provinciais são
sancionadas pelo vice-governador da província.
Devido à complexidade da sociedade moderna, são
criadas cada vez mais leis. Se nossos legisladores tivessem que
lidar com todos os detalhes de todas as leis, a tarefa se tornaria
praticamente impossível. Para resolver esse problema, o
Parlamento e as assembléias legislativas geralmente aprovam
leis de cunho mais geral, delegando autoridade para a
criação de leis mais específicas, chamadas de
"regulamentos". Os regulamentos servem para estabelecer objetivos
específicos ou para expandir o alcance das leis gerais, mas
sua abrangência encontra-se limitada por essas mesmas
leis.
A Constituição
Em uma democracia que possua uma constituição
escrita, os legisladores não podem criar qualquer lei que
desejem. A constituição de um país, entre
outras coisas, define os poderes e os limites dos poderes que podem
ser exercidos pelos vários níveis de governo.
Em muitos países criados por uma revolução
ou declaração de independência, como por
exemplo os Estados Unidos, a essência do direito
constitucional está contida em um único documento,
normalmente chamado de "constituição". No caso do
Canadá, entretanto, o país foi criado por uma lei do
Parlamento da Grã-Bretanha; conseqüentemente, ele
não possui uma "constituição" propriamente
dita. O documento mais próximo a um texto constitucional
seria o Ato da América do Norte Britânica de 1867,
pelo qual as províncias coloniais britânicas do
Canadá (Alto e Baixo Canadá), Nova Escócia e
Nova Brunswick uniram-se para criar o Dominion do
Canadá.
Ainda assim, mesmo sem existir uma "constituição"
propriamente dita no direito canadense, a Lei Constitucional de
1982, que figura como anexo "B" da Lei do Canadá de 1982,
através da qual a constituição canadense foi
finalmente repatriada para o Canadá, define o que é a
constituição. O artigo 52 da Lei declara que a
Constituição do Canadá é a lei suprema
do Canadá e inclui uma lista de 30 textos legislativos e
decretos enumerados em um anexo.
A confederação das províncias na
formação do Dominion do Canadá não
acarretou nenhuma ruptura com o governo imperial. O novo
país continuou a fazer parte do império
britânico, governado por autoridades nomeadas pelo monarca,
aconselhado pelo secretário colonial britânico em
Westminster. Longe de codificar novas leis constitucionais para o
Canadá, o Ato da América do Norte Britânica
não abrangia muito mais do que as regras da
confederação, não possuindo nem mesmo uma
cláusula que tornasse possível sua
modificação. Por essa razão, até 1982,
quaisquer modificações no Ato da América do
Norte Britânica deveriam ser aprovadas pelo Parlamento
britânico.
A Constituição define os princípios
básicos da democracia do Canadá. Ela também
define os poderes dos três órgãos do governo: o
executivo, o legislativo e o judiciário.
No Canadá, é a Rainha quem está investida
do poder executivo. Mas em nossa sociedade democrática,
existe uma convenção constitucional refletida nas
leis fundamentais segundo a qual, na realidade, o poder executivo
é detido pelo Gabinete, formado no nível federal pelo
primeiro-ministro e diversos ministros que devem prestar contas no
Parlamento pelas diversas atividades governamentais. Assim, cada
ministro é responsável pelo ministério
colocado sob sua autoridade, como por exemplo o Ministério
das Finanças ou o Ministério da Justiça.
Quando nos referimos ao "governo" de maneira geral, estamos
normalmente nos referindo ao executivo.
O poder legislativo, que no nível federal no
Canadá é chamado de "Parlamento", é
constituído pela Câmara dos Comuns, pelo Senado e por
Sua Majestade. A maioria das leis no Canadá são
primeiramente examinadas e discutidas pelo Gabinete e, em seguida,
discutidas e aprovadas pelos membros da Câmara dos Comuns e
do Senado.
Antes de um projeto de lei tornar-se lei, a Rainha ou seu
representante, o governador geral, deverá
"sancioná-la". O mesmo ocorre nas províncias, com a
diferença que o representante provincial da Rainha é
chamado de vice-governador. O requisito de sanção
real não significa que a Rainha exerça um poder
político: trata-se de uma convenção
constitucional que determina que a Rainha siga sempre os conselhos
do governo.
Nossa constituição também define o "poder
judiciário", significando que são os juízes
que cuidam dos casos apresentados aos tribunais. A
Constituição trata expressamente apenas da
nomeação de juízes dos tribunais federais; os
juízes provinciais são nomeados de acordo com as leis
das províncias. O papel do poder judiciário é
interpretar e aplicar as leis e a Constituição, e
tomar decisões imparciais em todos os casos, sejam eles do
direito público, como um caso penal, ou do direito privado,
como um litígio contratual.
O sistema federal
A constituição define o sistema federal de governo
do Canadá. Isto significa que o poder ou a
"competência" para criar leis está dividida entre o
Parlamento do Canadá e as assembléias legislativas
das províncias. O Parlamento pode criar leis para todo o
Canadá relacionadas a assuntos que lhe são
atribuídos pela Constituição. A
assembléia legislativa da província, do mesmo modo,
pode criar leis sobre assuntos sobre os quais tem
competência. No entanto, essas leis são vigentes
somente dentro dos limites da província em questão.
Diversos outros países, como a Austrália e os Estados
Unidos, também possuem sistemas federais. A
competência legislativa nesses países está
dividida entre o governo federal e os vários estados. Por
outro lado, a Grã-Bretanha não possui um sistema
federal; o seu Parlamento é a única autoridade legal
para criar leis para todo o país.
A Constituição canadense confere poderes às
províncias para criarem leis sobre assuntos como
educação, propriedade, administração da
justiça, hospitais, municipalidades e outros assuntos de
natureza local ou privada dentro das províncias.
O Parlamento canadense trata, na maioria dos casos, de assuntos
sobre o Canadá como um todo, como por exemplo o
comércio entre províncias, a defesa nacional, o
direito penal, a moeda, patentes e serviços postais.
O Parlamento federal também é responsável
pelos territórios do Yukon e do Noroeste. Para assegurar que
os habitantes dos territórios possam autogovernar-se em
assuntos de caráter local, da mesma maneira que os
cidadãos das províncias, a legislação
federal define a eleição de conselhos territoriais
com poder (similar aos das províncias) para criar leis.
Também existem os governos municipais. Eles são
criados sob as leis provinciais e podem adotar regulamentos que
tratam de diversos assuntos locais, como por exemplo a
regulamentação de estacionamentos e a emissão
de licenças de construção.
Finalmente, existem arranjos específicos que foram
desenvolvidos para os povos aborígines das várias
regiões do Canadá. Por exemplo, as tribos
indígenas podem exercer diversos poderes governamentais em
reservas que se encontram sob a Lei Indígena. Também
existem diversos exemplos de governos aborígines que exercem
poderes governamentais decorrentes de acordos específicos
negociados com os governos provinciais e federal.
A Carta Canadense de Direitos e Liberdades
No Canadá, a proteção dos direitos e
liberdades individuais está sujeita à
jurisdição federal e provincial. Os governos dos
territórios também podem legislar para proteger os
direitos humanos, já que o governo federal delegou-lhes
poderes para tanto.
A Declaração Canadense de Direitos de 1960 foi a
primeira lei federal que protegia expressamente os direitos humanos
fundamentais dos canadenses. A Lei Canadense de Direitos Humanos,
adotada em 1977, também protege os direitos humanos nas
áreas de emprego, habitação e locais
comerciais. Ao contrário da Declaração de
Direitos, a Lei Canadense de Direitos Humanos se aplica não
apenas ao governo federal, mas também ao setor privado.
Todas as províncias e territórios também
possuem legislação de direitos humanos, que
proíbem a discriminação por diversos motivos
em relação a emprego, fornecimento de bens,
serviços e instalações. Estas leis referem-se
à discriminação por parte de indivíduos
no setor privado e nos governos provinciais ou territoriais.
A proteção fornecida por toda a
legislação mencionada acima é limitada. Como a
Declaração de Direitos, a Lei Canadense de Direitos
Humanos e todos os códigos de direitos humanos das
províncias são somente regulamentos, estando sujeitos
à ab-rogação. Foi somente após a
criação da Carta Canadense de Direitos e Liberdades
que os direitos humanos no Canadá passaram a ser
expressamente protegidos pela Constituição.
Quando a Constituição foi repatriada em 1982, a
Carta Canadense de Direitos e Liberdades tornou-se parte
fundamental de nossa Constituição. A Carta é
válida para todas as assembléias legislativas
provinciais e para o Parlamento. A Carta se sobrepõe a todas
as outras legislações pois está "inscrita" na
Constituição e é a lei suprema do
Canadá. Isto significa que, quando um indivíduo que
acredita que o Parlamento ou alguma assembléia legislativa
tenha violado seus direitos garantidos pela Carta pede ajuda aos
tribunais, estes podem declarar a lei em questão
inválida por estar em conflito com a Carta. Além
disso, os tribunais podem estabelecer outras medidas apropriadas
para os indivíduos cujos direitos foram infringidos.
No entanto, a Carta também reconhece que, em uma
democracia, os direitos e liberdades não são
absolutos. Por exemplo, a liberdade de expressão está
garantida, mas ninguém pode gritar "fogo" dentro de um
teatro cheio, difamar uma pessoa ou difundir propaganda de
ódio. No Canadá, o Parlamento e as assembléias
legislativas podem limitar os direitos fundamentais, mas somente se
puderem estabelecer que o limite é razoável,
prescrito pela lei e possa ser justificado em uma sociedade livre e
democrática. Isso permite equilibrar os interesses da
sociedade e os interesses dos indivíduos para determinar se
as restrições aos direitos individuais são
justificadas.
Em virtude do acordo entre os governos federal e provinciais que
resultou na Lei Constitucional de 1982, tanto o Parlamento como as
assembléias legislativas provinciais retêm um poder
limitado para aprovar leis que possam violar certos direitos da
Carta. Muitos acreditam que essa disposição
está de acordo com nossos princípios
democráticos, já que ela confere a última
palavra às assembléias legislativas e ao Parlamento,
cujos membros foram eleitos, e não ao judiciário,
cujos membros não foram eleitos. No entanto, essa
competência é limitada pelo fato de que o Parlamento
ou assembléia legislativa deve declarar, especificamente,
que a lei adotada "revoga" disposições
específicas da Carta. Além disso, a
declaração deve ser examinada e sancionada novamente
a cada cinco anos; caso contrário, perderá seu vigor.
Essas condições servem como um tipo de
advertência aos canadenses e forçam o governo que
está invocando a revogação da cláusula
a se explicar, a aceitar total responsabilidade por suas
ações e a aceitar as conseqüências
políticas de suas ações.
A Carta protege nossos direitos e liberdades nas seguintes
áreas:
Liberdades fundamentais
A Carta protege constitucionalmente certas liberdades
fundamentais que o costume e a lei tornaram praticamente universal
em nosso país com o passar dos anos. Todas as pessoas no
Canadá têm o direito de seguir qualquer
religião ou não seguir religião alguma. Somos
livres para expressar nossas opiniões, para nos reunir em
grupos e nos associar com quem quisermos, na medida em que isso
não infrinja os direitos legais e constitucionais de outros.
Diferentemente da situação existente em muitos
países totalitários, a liberdade de imprensa para
divulgar e transmitir notícias e outras
informações está garantida no
Canadá.
Direitos democráticos
A tradição dos direitos democráticos no
Canadá está especificamente garantida na Carta. Isto
significa que os cidadãos canadenses têm o direito
constitucional de votar e de ser eleito para membros do Parlamento
e das assembléias legislativas provinciais. Existem algumas
restrições em uma sociedade democrática no que
concerne o direito de votar e ser candidato; por exemplo,
restrições a menores ou a certas autoridades
eleitorais que possam ter um voto decisório em uma
eleição.
Outra proteção democrática é a de
que os governos não podem continuar indefinidamente no poder
sem convocar eleições. A Carta exige que os governos
convoquem eleições no mínimo uma vez a cada
cinco anos. A única exceção existente é
um estado de emergência nacional, como em caso de guerra.
Ainda assim, dois terços dos membros do Parlamento ou da
assembléia legislativa deverão concordar com o
adiamento da eleição.
A Carta ainda define que o Parlamento e as assembléias
legislativas devem reunir-se no mínimo uma vez por ano. Esta
medida garante que nossos governos executem o trabalho para o qual
foram eleitos e também que respondam publicamente por seus
atos; eles não podem governar em segredo.
Liberdade de ir e vir
Os cidadãos canadenses têm o direito de entrar,
permanecer ou sair do país. Os cidadãos e residentes
permanentes têm o direito constitucional de morar e trabalhar
em qualquer lugar do Canadá. Isso inclui o direito de morar
em uma província e trabalhar em outra. A Carta ainda
proíbe que as províncias façam
diferença entre residentes e recém-chegados. Por
exemplo, se uma pessoa for um profissional qualificado em uma
província, como um contador ou um professor, essa
província não pode proibir essa pessoa de trabalhar
lá pelo fato de morar em outro lugar do país. No
entanto, isto não impede que a província exija
determinadas qualificações para prover certos
benefícios sociais e assistenciais, nem impede que a
província aplique outras leis ou procedimentos que se
encontram em vigor na província e que não sejam
discriminatórios. Uma província que possua um
índice de emprego abaixo da média nacional
também tem o direito de implantar programas para os seus
residentes que se encontrem em situação social e
economicamente desvantajosa.
Direitos jurídicos
A Carta exige que o governo aja de acordo com direitos e
liberdades específicos. Esses direitos foram criados para
proteger os indivíduos e garantir a eqüidade nos
tribunais, particularmente em casos penais. O direito ao habeas
corpus em caso de detenção e a
presunção de inocência até prova em
contrário sempre foram reconhecidos como parte do nosso
direito, mas esses direitos agora encontram-se garantidos em nossa
constituição.
No Canadá, todos têm o direito à vida,
à liberdade e à segurança de sua pessoa, e
não podem ser privados desses direitos exceto de acordo com
a justiça fundamental. Os canadenses estão protegidos
contra buscas e apreensões abusivas; e mesmo quando a busca
e apreensão for autorizada por lei, a polícia
não pode usar força excessiva para executá-la.
Também estamos protegidos contra detenções e
aprisionamento arbitrários. Em outras palavras, a suspeita
de que cometemos um crime deverá ser razoável para
que um policial possa nos prender.
A Carta também nos protege quando estamos detidos ou
presos. Temos o direito de saber porque fomos detidos ou presos, o
direito de consultar um advogado sem demora e de ser informados
desse direito, e o direito de obter rapidamente a decisão de
um tribunal sobre a legalidade da detenção. Esses
direitos nos protegem contra ações arbitrárias
dos órgãos encarregados da aplicação da
lei.
Quando acusados de um delito sob a lei federal ou provincial,
também temos o direito de ser notificados rapidamente do
delito cometido; de ser julgados dentro de um prazo
razoável; de não ser obrigados a testemunhar em nosso
próprio julgamento; de ser considerados inocentes até
que nossa culpa seja provada acima de dúvidas
razoáveis em um processo público e equânime por
um tribunal imparcial e independente; de não ser privados
sem justa causa de liberdade sob uma fiança razoável;
de ser julgados por um júri no caso de
infrações sérias; e de não ser julgados
ou punidos duas vezes pelo mesmo delito.
Temos o direito de proteção contra tratamentos ou
penas cruéis e inusitadas. Todas as testemunhas em
julgamentos têm direito à assistência de um
intérprete se a testemunha não entender a
língua ou for surda. As testemunhas também têm
o direito de que nenhuma prova incriminadora seja usada contra elas
em procedimentos subseqüentes.
Direito à igualdade
De acordo com a Carta, todos os indivíduos,
independentemente de sua raça, religião,
nacionalidade ou origem étnica, sexo, idade,
deficiências físicas ou mentais, são iguais
perante a lei e gozam da mesma proteção e
benefícios legais. Isto significa que as leis e os programas
governamentais, como planos de aposentadoria, não podem ser
discriminatórios. Por exemplo, procedimentos que discriminem
injustamente com base na religião não são
permitidos. No entanto, a existência da Carta não
significa que todas as pessoas devam ser tratadas sempre exatamente
da mesma maneira. Por exemplo, a Constituição permite
a criação de programas especiais que favoreçam
grupos ou indivíduos que possam encontrar-se em uma
posição desvantajosa na sociedade, como por exemplo
mulheres, minorias visíveis ou deficientes.
Direitos lingüísticos
A Carta reconhece que o inglês e o francês
são as línguas oficiais do Canadá e da
província de Nova Brunswick. Essas duas línguas
têm o mesmo status, direitos e privilégios iguais no
seu uso em instituições do Parlamento e do Governo do
Canadá, e na Assembléia Legislativa e Governo de Nova
Brunswick.
Todos têm o direito de usar o inglês ou o
francês nos debates e nos trabalhos do Parlamento ou da
Assembléia Legislativa de Nova Brunswick. Todas as leis,
arquivos e documentos deverão ser impressos e publicados em
ambas as línguas. Todos têm o direito de usar o
inglês ou o francês nos trabalhos de qualquer tribunal
estabelecido pelo Parlamento ou em qualquer tribunal de Nova
Brunswick. Ademais, o público tem o direito de se comunicar
e receber serviços, em inglês ou francês, das
sedes de instituições federais ou outros
escritórios federais onde exista uma demanda significativa
em qualquer uma dessas línguas, ou onde a natureza do
escritório o justifique. O público tem o direito de
se comunicar e receber serviços, em inglês ou
francês, de todos os escritórios da Assembléia
Legislativa de Nova Brunswick e de instituições
governamentais.
A Lei Constitucional de 1867 e a Lei de Manitoba de 1870
conferem às pessoas no Quebec e em Manitoba,
respectivamente, o direito de usar o inglês ou o
francês nos debates e trabalhos das assembléias
legislativas e tribunais dessas províncias, e exigem que as
leis sejam sancionadas e publicadas em ambas as línguas. A
Carta protege esses direitos e obrigações.
Direitos de instrução na língua da
minoria
Nas nove províncias e territórios onde o
inglês é predominante, os cidadãos cuja
língua materna seja o francês, ou que
freqüentaram escolas primárias em que se falava o
francês no Canadá, ou que tenham filhos que receberam
ou estão recebendo educação primária ou
secundária em francês no Canadá, têm o
direito constitucional de que todos os seus filhos freqüentem
escolas de língua francesa.
No Quebec, os cidadãos que tiveram sua
educação primária em inglês no
Canadá, que tenham filhos que tiveram ou têm recebido
educação em inglês no Canadá, têm
o direito constitucional de que todos os seus filhos
freqüentem escolas de língua inglesa.
O direito à instrução na língua da
minoria em inglês ou francês é válido
onde exista, na província respectiva, um número
suficiente de crianças na mesma situação para
justificar a prestação de tal
instrução, e inclui, onde o número de
crianças o justifique, o direito dessas crianças
receberem essa educação em escolas ou
instalações educacionais da língua da
minoria.
Direitos dos aborígines
Várias disposições na Carta e outras
disposições da Constituição garantem
especificamente a proteção dos direitos dos povos
aborígines do Canadá, que, por
definição, incluem os Índios, os Inuits e os
Métis. O objetivo dessas disposições é
duplo: primeiro, reconhecer e proteger os direitos e liberdades
ancestrais originados de tratados dos povos aborígines e,
segundo, ajudar os povos aborígines a preservarem suas
culturas, identidades, costumes, tradições e idiomas.
Por exemplo, nenhuma disposição da Carta
poderá ser usada para retirar qualquer direito que os povos
aborígines possuam atualmente ou que possam obter no futuro
através de, por exemplo, regulamentação de
suas reinvindicações territoriais.
A Carta e outros direitos
Seria errado supor que a Carta contém todos os direitos
dos canadenses; na verdade, a Carta garante apenas uma série
de direitos básicos fundamentais. Todos temos outros
direitos derivados de leis federais, provinciais, internacionais e
consuetudinárias. E, naturalmente, o Parlamento ou as
assembléias legislativas sempre podem aumentar nossos
direitos.
A Constituição confirma que somos um país
multicultural e que os direitos da Carta devem ser interpretados de
acordo com esse ideal.
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