setembro 13, 2005 - Washington, DC
Presidente do Conselho Permanente, Embaixador Alvarez
Muito obrigado, Senhor Secretário Geral. Bem-vindos a essa Oitava Conferência da Cátedra das América. Quero aproveitar este momento e esta tribuna para enviar ao Embaixador Alberto Borea, que criou o Conselho Permanente e esta Cátedra, e que tenho a certeza que estará na primeira fila em algum lugar do Peru ouvindo e vendo este momento. Nesta ocasião temos como conferencista de honra o Presidente Felipe González.
Ainda faltavam douze ou treze anos para que morresse, na Espanha, o General Franco quando um advogado de Sevilla com um pouco mais de 20 anos entrou para o clandestino partido socialista obrero espanhol. Aquele jovem foi chamado a ser o homem que foi responsável pela modernização mais espetacular da história da Espanha. Quando Felipe González já era Presidente de Governo, e lhe perguntaram se esta mudança significava o que ele havia prometido, ele se referiu justamente ao grande esforço modernizador pelo qual passaria o seu país e resumiu com três palavras ¨Que a Espanha funcione¨. Com o seu profundo sentido ético, com a sua fé inquebrantável na democracia e com o seu convencimento de que a economia de mercado e os direitos sociais não são incompatíveis, Felipe González conseguiu fazer com que a Espanha funcionasse. Um político ao mesmo tempo moderado e radical, primeiro modernizou o seu partido, para depois , aos 14 anos de seu governo, modernizar o seu país. E se nos aproximarmos ao trabalho de Felipe González , no âmbito internacional, basta apenas revisar a sua trajetória na Europa, na América, ou no mundo árabe, as três bases tradicionais da política exterior da Espanha para ver um estadista respeitado no mundo inteiro, porque Felipe González é o apaixonado europeísta que tendo a responsabilidade pela Espanha se incorpora com as comunidades européias em 1985, que permitiu a este país, entre outras coisas, desfrutar de 20 anos de crescimento econômico espetacular. Sua paixão pelo mundo árabe, pela paz entre judeus e palestinos é o que leva a Espanha a estabelecer relações diplomáticas com Israel, a reconhecer, ao mesmo tempo, o status diplomático da OLP e a conseguir definitavemente a realização da histórica conferência de Madrid que colocou em andamento o processo de reconciliação no Oriente Médio ou como o chamam na Espanha o Oriente Próximo. É um homem que acredita que a paz, a democracia e a liberdade exigem compromissos com a segurança, como o que serviu de premissa para a entrada da Espanha na OTAN, ou como manter uma boa relação com os Estados Unidos e apoiar a coalisão aliada, com o aval das Nações Unidas, na I Guerra do Iraque em 1991, a que ocorreu devido a invasão intolerável do Kuaite. Felipe González é, a final, o homem apaixonado pela América, diríamos, um espanhol que foi conquistado pela América. Talvez seja essa sua paixão mais conhecida por nós. Durante o governo de Felipe González, a relação entre a Espanha e a América Latina mudou e se fortaleceu de maneira substancial . A Espanha desempenhou um papel fundamental em avaliar ou dar o seu aval nas seis democracias americanas e realizou incansáveis esforços pela paz na América Central. A cooperação política e material da Espanha foi essencial para estabilizar as transições para a democracia. A presença crescente das empresas espanholas na região também começou em seu período. Seu trabalho permanente pela democracia, pela integração regional e pelo desenvolvimento econômico-social da América, o seu compromisso com o que ele chamou de ¨a terra de libertad de imaginación¨ no seu discurso ante a Primeira Cúpula Iberoamericana de Chefes de Estado e de Governo, realizada em Guadalajara, no México, em 1991. Essa Conferência Iberoamericana foi certamente um foro criado com o seu apoio decidido, no entanto, não se limitou a Espanha, ao seu tradiconal vínculo historico-cultural, mas abriu a porta plenamente a uma relação européia-latinoamericana mais ampla e frutífera. Tudo isto começou a ocorrer quando Felipe González era Presidente do Governo da Espanha e, agora, constitui política do Estado espanhol. Mas, Felipe Gonzáles, já como cidadão particular, nunca deixou a América Latina., continuou trazendo para cá o seu discurso de democracia, modernidade e governabilidade convertendo-se em conselheiro de muitos governantes da região, comparecendo com sabeduria e sensatez onde a sua presença era necessária. Felipe González é esposo de Carmem Romero , pai de 2 homens, Pablo e David, e uma filha chamada Maria. Ama a natureza e tem por hobby trabalhar com materiais nobres, como a madeira e a pedra, fazendo com estes grandes blocos de esculturas. Seu último hobby é joalheria
E viaja constantemente a procura de pedras, como âmbar, coral e outras para trabalhá-las de maneira natural e criativa. É um homem de grande sensibilidade humana e um carisma fora do comum. Há quase 30 anos, nas reuniões políticas da primeira campanha eleitoral da democracia espanhola, Felipe González citava freqüentemente a Bertold Brecht para dizer “há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons mas há os que lutam toda a vida e esses são os imprescindíveis”. Com os Senhores, Felipe González, um desses homens imprescindíveis.
FELIPE GONZALEZ
Muito obrigado Presidente, muito obrigado a todos. Quero começar esclarecendo que as citações de Bertold Brecht alguns dos colegas tomaram ao pé da letra, tem mais de oitenta anos e querem continuar mantendo o poder. Eu não me referia a isso, eu me referia a lutar toda a vida mas não a permanecer no poder toda a vida. Agradeço por suas palavras Senhor Presidente, Senhor Secretário-Geral e querido amigo. Quero esclarecer uma coisa aqui, eu não faço conferências, são muito aborrecidas para mim, e eu renunciei já as conferências, ao que chamamos, em nossa cultura, lições magistrais, Estou vinculado à América Latina já há 30 anos, a metade desse período fui Presidente de Governo, mas já passei 9 anos fora da Presidência de governo e algumas vezes conto acontecimentos, fatos . Gosto de mencionar que tive mais horas de entrevistas de televisão na América Latina do que na Espanha, entre a Venezuela e o México. Quando obtive a Presidência de Governo, por maioria absoluta, tive menos minutos de televisão para chegar à Presidência de Governo do que os programas em que comparaci e falei na Venezuela e México, até 82. Sou dos que acreditam na Espanha, não somos muitos, que somente se compreende a Espanha quando se conhece a América Latina . Muitos ficam surpreendidos com isto. Não há outra maneira de ver a Espanha, como diriam os compatriotas, com os problemas que temos, o que é isso da Espanha com as autonomias..., e se a Espanha existe ou não existe.... e se isso é ou não uma nação..... Somente vendo a Espanha da América Latina é que se entende o que é a Espanha. Portanto, compartilhamos algo que é muito sério, que é um problema de identidade .
Eu agradeço o Presidente suas amáveis palavras, e não sei se as mereço, tendo a pensar que não, quando fala de minha preocupação com o Oriente Médio, que é certo, e os problemas do mundo. Eu me lembro de que há anos insisto em que a crise energética será uma crise de oferta, incidentes como o do caminho do conflito do Iraque, as tensões da Nigéria, ou inclusive as tensões, em certo momento, na Venezuela, etc não afetam o problema de fundo. Pela primeira vez na história da humanidade, a história contemporânea da humanidade, parece-me evidente que não haverá capacidade de oferta para atender à crescente procura se a economia mundial, e esperamos que assim seja, continuar com taxas de crescimento como as que vemos agora. Quando eu falo de economia mundial, naturalmente falo basicamente da China, que eles sim crescem . Portanto, não haverá energia suficiente para satisfazer a procura, e uma crise energética é um dos temas que me preocupa em matéria de oferta. Isto não só cria problemas de preço mas também de desenvolvimento, problemas de integração regional e principalmente tensão internacional e conflitos. Não está sendo visto dessa maneira. Agora já sei que aperta que o barril chegue a 60 ou 70 dólares, isto tem suas vantagens e seus inconvenientes mas não voltar-se-á mais ao passado. Além disso, não haverá capacidade de resposta, do ponto de vista energético, ao crescimento da procura, a menos que, e esperamos que não ocorra, haja uma queda, uma depressão mundial. Então há alguns meses em Irã, o país dos persas, recentemente estive na Universidade de Tel Aviv, meus compatriotas dizem ¨ainda bem que é só Oriente Médio porque se fosse inteiro não se poderia viver com a quantidade que o Médio Oriente tem, imagina se fosse um Oriente Inteiro¨. E eu reestabeleci relações diplomáticas com o Estado de Israel há 20 anos, em 3 meses se completam 20 anos, e não haviam relações diplomáticas , era muito complicado . Na segunda crise do petróleo, quando o petróleo se impôs a uns preços cujo equivalente em dólares, hoje, seria 80 dólares por barril, não se esqueçam, porque eu não me esqueci também, esse era o preço equivalente no valor constante da moeda de 83, 82, etc. Realmente estabeleci relações diplomáticas com Israel mas podem acreditar que eu não tenho muita paixão de poder, no sentido de poder pelo poder, nunca foi um fim o poder mas sim um instrumento. Portanto, quando eu pude me libertar do poder, até eu já não aguentava mais, eu tinha 14 anos de Presidente de Governo, decidi que nunca mais voltaria, e além do mais que o reestabelecimento de relações diplomáticas com Israel sabe o que isso me causou uma certa emoção, algo que não tinha mais do que um valor simbólico, mas os símbolos tem importância, ou seja, em 1992 eu cancelei o Decreto de expulsão dos judeus, que os reis católicos tinham aprovado 500 anos antes, um decreto de expulsão dos judeus da Espanha, e eu me dei ao luxo de derrogar esse Decreto que já não servia, claro, para nada, mas que prazer, que prazer. Quinhentos anos depois, com se fosse a Igreja católica, reconheci publicamente o erro, a Igreja também o faz não, é por se move e no entanto se move.
Bom, não dedicarei mais tempo a isso, eu disse que não vou fazer uma conferência, eu vou oferecer um cardápio para que possamos falar dos problemas que me preocupam, e me preocupam seriamente. Não vejo a América Latina a partir da Europa, não, eu vejo a América Latina a partir da própria América Latina, posso me enganar mas eu vejo da América Latina. Há pouco tempo, Belisário Betancourt numa reunião de uns tantos amigos dirigentes, me disse por quê não sugeres que te nomeiem representante da União Européia na América Latina, e não existe o cargo, mas eu nunca o aceitaria. Por quê dizia sorpreendido? Aceitaria que a América Latina me propusesse ser representante da América Latina na União Européia, mas não ao contrário. Por quê? Ia dizer Belizário, Entre outras coisas, porque seria a primeira vez que a América Latina chegaria a um acordo em alguma coisa de maneira pró-ativa e não somente para se defender de uma agressão. Portanto, isto é para que saibam qual é a minha abordagem e tem certa importância para que possam interpretar, como sou analfabeto funcional duas vezes, preciso falar em castelhano, não sei inglês, isso é o analfabetismo funcional e segundo o meu cérebro continua funcionando analogicamente e não digitalmente. Então para adaptar-me à revolução tecnológica eu traduzo da analogia para o digital mas eu preciso traduzir. Mesmo assim, continuo me preocupando de temas que são básicos. O debate na América Latina nos últimos vinte anos tem sido de reformas econômicas e houve muitas, nem sempre brilhantes, nem bem acabadas, mas muitas reformas econômicas, e o produto bruto cresceu um pouco mais do que a população. Então o produto bruto por habitante praticamente não cresceu em 25 anos. Estou falando da região, não estou falando de algumas exceções, que existem em todas as partes. Ao contrário, com a situação de há 25 anos os sucessos que obtivemos, vemos que o produto bruto está pior repartido do que há 25 anos, pior distribuído e coincide com a época de maior esperança democrática da América Latina, porque a democracia hoje é uma regra e não uma exceção, sempre há naturalmente exceções. Antônio Machado dizia que não há regra sem exceções e portanto a exceção, dizia, confirma a regra mas, se a lógica fosse levada a extremo, dizia ele, uma regra muito confirmada seria ainda mais regra. Portanto, se estivesse cheia de exceções seria a regra mais forte, mais confirmada. Mas não se incomodem são as traições da lógica, mas agora, que vemos na única região emergente do mundo, com sistemas democráticos generalizados e com um certo fracasso diante dos desafios do desenvolvimento, apesar das sucessivas gerações de reformas econômicas que foram produzidas. Deveríamos perguntar-nos, uma e outra vez, por quê compartilhamos os mesmos demônios, espanhóis e latinoamericanos, demônios históricos eu me refiro. O que é que está acontecendo? Por quê ocorre isto? Porque eu não posso deixar de me lembrar que quando eu cheguei ao Governo, há um truque no que eu vou dizer, porque os dólares daquela época não valem a mesma coisa que os dólares de hoje, mas o meu país teria 4.500 dólares de produto per cápita e hoje tem 22 mil, 23 mil, 24 mil e há uma melhor distribuição do que quando tinhamos 4.500 dólares per cápita. Quando eu sai do Governo estavamos a 15 mil. Não quero sequer me sentir orgulhoso da cifra mas da capacidade que ocorreu na Espanha de auto-identificar-se como pessoas que podiam fazer as coisas que viam porque o tinham feito os alemãs, os franceses, e nós não tinhamos feito nunca. E onde estava a diferença? E inclusive onde está a diferença? É que não tinhamos confiança em que eramos capazes de fazê-lo. Onde está a diferença? Agora, eu posso assegurar que não descobrimos petróleo, que se converte numa maldição nos últimos 70 anos para quem o descobre, porque o petróleo não se traduz para o desenvolvimento socio-econômico, salvo no caso da Noruega, em nenhum dos modelos, nem árabes, nem africanos, nem latinoamericanos. Não descobrimos petróleo, nem nada, só descobrimos que poderiamos fazê-lo e o país mudou. Isso me parece que é a essência da coisa. Então agora ouço com preocupação o debate sobre a democracia na América Latina. Me dizem que a democracia fracassou, muitas das pessoas da minha tribu ideológica de esquerda. A democracia está fracassando! Não, não, não, ..... a democracia não é uma ideologia. A democracia não garante, pelo menos a curto prazo, um bom governo. Garante que podemos expulsar o governo que não gostamos, que não é pouca coisa. Que é o que a ditadura nunca garante, fazendo bem ou mal tem uma tendência quase irrefreável de fazer mal e a perdurar e não podemos tirar isso de cima da gente. Portanto, a democracia garante o bom governo a longo prazo porque temos medo de que nos expulsem. Essa é virtude não é uma ideologia. Eu sempre tenho lutado pela democracia . Miguel Insulza dizia que ele , um presidente que sempre foi moderado nesse sentido, tinha o defeito de ser moderado inclusive quando era jovem, e a vantagem de que como quando era jovem já era moderado de velho posso continuar sendo moderado , mas claro quando se é muito revolucionário quando é jovem, quando é velho passa-se ao outro lado, isso não se corrige. Tanto que a democracia não é uma ideologia. E porque insisto nisso porque na América Latina é preciso conseguir com que a democracia seja mais democracia, ou seja, seja mais eficiente, mais transparente, mais capaz de responder às necessidades dos cidadãos e que haja mais democracia e mais desenvolvimento, as duas coisas. Nos últimos anos, quando sai do governo, perguntavam por minha experiência no governo, e por quê a Espanha saiu de tanto e passou a tanto, e por quê se modernizou. É verdade que as pessoas de mais idade, que tem as vezes a desvantagem de serem mais velhos mas a vantagem de ter visto a Espanha há mais de 30 anos, vêem a Espanha agora e só fisicamente é que compreendem que alguma coisa que mudou radical e profundamente. E além disso como me vêem cara de vermelho, sou do partido socialista, embora seja mais cor de rosa, não exageremos, me veêm com uma cara de esquerda. Por quê não nos fala de crescimento econômico e eqüidade social, por quê? E isso, no Chile, me acontece com frequência. Os empresários chilenos são eficientes mas muito ideológicos, concordam com o que faz o governo do Presidente Ricardo Lagos mas continuam votando na direita e dizem, finalmente, eu faço política institucional, não digo a esquerda o que quero ouvir, digo a todos o que eu penso e posso avançar com isso senão assumo muitos riscos, inclusive para falar no México, sendo estrangeiro, espanhol, muitas vezes é perigoso demais, eu trato todos igual. Me convidam para falar segundo o tema democracia, desenvolvimento e crescimento econômico e eqüidade e as cifras são as que eu dei para os senhores, há 20 anos atrás, que o PBI per cápita não cresce além de meio ponto, um ponto, mas está pior distribuído e portanto há pessoas numa péssima situação, não é o pior Continente do mundo, como dizem alguns, mas é o mais desigual e se confundem com o mais pobre, não é certo. Na Africa sim, há pobreza sem esperança, é desigual, se distribui mal, não há riqueza como dizem as pessoas de esquerda, mas a renda é que produz o crescimento. Portanto, quando me convidam a isso eu digo não quero falar de crescimento econômico nem de eqüidade social, eu quero falar de crescimento econômico e de redistribuição da renda porque se me colocam o crescimento econômico como problema técnico e a redistribuição da renda como um problema moral estão criando uma armadilha para mim . E de eqüidade? diziam os empresários chilenos. Quanto a isto, eu diria que, falará com maior autoridade moral do que eu, o Papa. Então, agora, devemos deixar que o Papa fale desse assunto e eu vou falar da redistribuição de renda.
E na verdade estou preocupado porque depois de uma época de certo fundamentalismo neoliberal podemos entrar numa época de populismo demagógico diante do fundamentalismo neoliberal, e são duas coisas igualmente perversas. Na política econômica é preciso sermos pragmáticos, é claro é um pecado no mundo latino falar de pragmatismo. Parece uma renúncia às idéias e se recuperassemos a Grécia clássica veriamos que pragmático é aquele que tem idéias, que é capaz de transformá-las em realidades, não o que tem idéias e que nunca serão transformadas em realidade, que é permanentemente utópico e portanto nunca irá transformar a realidade de seu país, e as vezes digo sejam pragmáticos apesar dos choques que temos com os Estados Unidos , como os Estados Unidos na política econômica. E é verdade Embaixador, os Estados Unidos são pragmáticos na política econômica, é ideológico para os demais . Portanto quando precisam de déficit fazem déficit, não é preciso exagerar, mas o fazem, podemos exagerar um pouco as vezes, mas quando podem ter um superávit, aumentar a caixa, o fazem, fazem política econômica pragmática e além do mais tem mágicos como Greenspan, que lamentavelmente vai se aposentar. E nós fazemos política econômica ideológica. É preciso sair disso o mais cedo possível para tentarmos encontrar os caminhos do desenvolvimento. Não faltam idéias, podem crer. Cada vez que reflito sobre as necessidades de desenvolvimento da América Latina e vejo o déficit de infra-estrutura básica para o desenvolvimento descubro que cada projeto que creio que deve ser realizado já foi descoberto pela CEPAL há 25 anos e está nos documentos, nos papéis do BID, está nos papéis do Banco Mundial, nos documentos da América Latina. O problema é que ninguém os levou das musas ao teatro, ninguém os transformou em projetos operativos viáveis. Bem ninguém é um exagero, como toda exposição deste tipo, podemos ter matizes e tons. Necessitamos de democracia mais eficiente. Precisamos superar essa bobagem da democracia como ideologia porque eu tenho sido moderado democrata toda a vida porque nunca gostei da ditadura, nunca fui comunista por isto, porque não me agradava de Franco nem a ditadura que me ofereceu como alternativa. Portanto, tinha convicções democráticas seriamente e agora vejo muitos dos convertidos que fazem da democracia uma ideologia e uma arma quando é apenas um instrumento de governabilidade e convivência aprefeiçoável. E é aperfeiçoável, e não queremos aperfeiçoar. Vejo do Rio Grande até a Patagônia uma multidão de governos, na América Latina, que tem Presidentes que ganham as eleições legítimamente por maioria absoluta e nunca têm mais de 20% da representação parlamentar. Há um desajuste. No ano passado na República Dominicana vi o Presidente Leonel Fernández ganhar claramente as eleições do Presidente Hipólito, que era meu amigo, Leonel Fernández também, e quando chega o governo chega com toda a legitimidade e o presidente precisa aprovar uma reforma pelo Parlamento de acordo com o Fundo Monetário Internacional e ve que no Senado há um Senador seu, de sua formação, de 33, 29 do partido que acaba de perder as eleições que é o PRD e dois de outras tribus. E eu me pergunto, como é possível garantir uma reforma fiscal nessas condições num tempo limitado até que venha a nova eleição parlamentar. Portanto, temos problema de funcionalidade democrática. Repito, preocupa-me pensar e ver que quando existem falhas no funcionamento da política as pessoas dizem , gente muito culta e instruída, com muito conhecimento político, que o sistema presidencial não serve que é preciso passar para um sistema parlamentar. Não, não, pode não servir o Presidente do momento mas o presidencialismo, o parlamentarismo são duas fórmulas de articulação da democracia que podem ser ambas igualmente satisfatórias ou insatisfatórias.
Temos muitos problemas de governabilidade. Estivemos distraídos desde a crise de 80 com as reformas econômicas e não com o funcionamento das instituições . No Equador, o Presidente Gutiérrez, que é o quarto Presidente que deixa o poder nos últimos dez anos , chega à Presidência com 6 deputados dos 100 do Parlamento e os 10 que lhe dão apoio. Por mais presidencial que seja o sistema se tem uma representação parlamentar tão pequena, de uma ou outra forma, já se procurará a saída. Portanto temos uma crise da institucionalidade democrática e talvez tenhamos que limpar algumas teias de aranha de nossas cabeças. Com tanto tempo de autoritarismo, eu vivi isto no meu país, e mais até da metade da minha vida com um ditador por cima, que sem ditadura. Eu compreendo mas continuamos confundindo, exercício da autoridade com autoritarismo e se degrada a segurança, segurança física e jurídica porque não nos atrevemos a exercer a autoridade e reformar o sistema para que a divisão de poderes realmente seja algo que garanta a segurança. Não há liberdade sem segurança. Não é certo que as pessoas possam sentir-se livres sem sentir-se seguros, se alguém não pode ficar segura na rua se não tem segurança jurídica. E essas reformas são prévias, coincidentes ou que acompanham a qualquer política econômica bem sucedida. Pode-se ter uma boa definição de política econômica mas se não houver uma boa institucionalidade democrática, esqueçam, não haverá desenvolvimento sustentável no decorrer do tempo. No item do desenvolvimento, eu dizia antes que me preocupa que me peçam que fale de eqüidade social, a luta contra a pobreza é um problema moral, claro que sim, mas também, também é um problema econômico. Na América Latina não haverá um desenvolvimento de relevância, um desenvolvimento econômico notável enquanto perdure o nível de pobreza que existe .Meu amigo Herling diria aos empresário é que a pobreza não é negócio Se quizer fazer da América Latina um Continente relevante não pode ter tantos milhões de pessoas sem acesso ao mercado ou marginalmente no mercado e o que dizia antes enquanto à política pragmática, estou cansado de ver que sempre se diz primeiro é preciso acumular poupança e capital, em épocas de crescimento, e depois quando a poupança e ocorreu suficiente capitalização, já se começará a distribuir, inclusive por derrame. A mesa se encheu e então já irão caindo os excedentes para que as pessoas saiam da pobreza mas antes de chegar este momento, nas épocas de crescimento, ocorre uma crise. Portanto, primeiro evita-se redistribuir a renda porque ainda é preciso acumular capital e quando chega a crise , dizem não mas na crise não se pode redistribuir e então já passamos 25 anos com distribuição negativa da renda. Eu insisto na redistribuição da renda. Por quê? As pessoas de esquerda falam de distribuição da riqueza . Sabe qual é a característica fundamental da esquerda Se preocupam de distribuir a riqueza para eles mesmos mas quando é de boa fé quando é de boa fé, mas não se preocupam em como se cria a riqueza e as pessoas conservadoras de direita se preocupam em criar riquezas mas nuncam encontram o momento de começar a redistribuir uma parte do excedente ou da renda. Eu acho que é uma tragédia para o desenvolvimento porque é preciso crescer e redistribuir. Eu digo uma coisa como estão, como se encontra o panorama da globalização não poderemos redistribuir diretamente através de salários, embora devessemos investir para gerar emprego, mas a pressão, a concorrência sul-sul não nos permitirá que os salários cresçam como redistribuição direta da renda o suficiente para ir equilibrando a renda. Portanto, a política com letra maiúscula não a politicagem precisa redistribuir a renda a partir do Estado, melhorando o que um Estado eficiente pode melhorar, a saúde básica, a educação, com igualdade de oportunidades, o acesso a serviços públicos, que o Estado possa prestar. Estes mecanismos de redistribuição da renda indireta que não pressiona a competititvidade das empresas e da economia é indispensavel para reliberar os recursos das pessoas que tem emprego e podem ter acesso ao mercado. Não há muito que descobrir é elementar e dizia aos amigos, ontem a noite, sério, em brincadeira, mas levando a sério, que como diz o pessoal de Andaluzia “o que é mais serio dever dizer-se fazendo graça, e as bobagens devem-se dizer com solenidade porque senão as pessoas notam que é bobagem, então continuemos com um pouco de humor. Gramsci o revolucionário italiano, homem que dizia que era comunista, dizia que ele era otimista quanto à vontade e pessimista quanto à inteligência. Então ele via a vontade dos revolucionários comunistas e parecia que esse era o motor que mudava a história mas a inteligência, ele dizia que isso não ia funcionar. E agora estamos com o desafio contrário. A inteligência nos permite ver e conhecer que a América Latina tem respostas políticas e econômicas para o desenvolvimento em suas mãos. E quando se pensa na vontade, duvida de que tenhamos vontade para fazer o necessário para que as coisas ocorram , vontade de acordos nacionais , de unir esforços, de não tornar ideológico o que não deve ser ideológico, de criar áreas de fortalecimento do concenso, de fazer política para as pessoas, de não continuar dizendo o que se diz tanto na política ¨isso que voce está fazendo não te convém¨, em vez de dizer isso convém às pessoas ou não , porque o que convém ao político ou não convenha é banal. É como o médico que diz que isto que propõe ao paciente não lhe convém a ele, médico. Interessa se convém ou não ao doente, ao paciente, e não se isso interessa ou não a mim. Portanto, é um pouco a exasperação que a situação produz é que é possível.
Comecei com a energia e vou acabar com a energia. A América Latina precisa mover as infra-estruturas que são autênticos gargalos para o desenvolvimento sustentável. A infra-estrutura de telecomunicação, de energia e de água. Se a América Latina não fizer além de uma educação para concorrer na sociedade digital , na sociedade do conhecimento, na globalização, com queiram, não terá oportunidade. Se não tiver desenvolvimento da infra-estrutura básica, os que estão no projeto da CEPAL há 30 anos e continuam sem ser feitas, não haverá desenvolvimento. E o problema da energia, que eu dizia antes, esta é uma região privilegiada energeticamente. Quando vemos que o desastre do Katherine, como desastre natural, produz uma redução de 10% no fornecimento, tanto na origem como no refinamento, isso produz uma alteração econômica monumental e pensamos na quantidade de energia que esse Continente tem, energia não renovável e também renovável , ainda que sejam menos estudadas e analisadas. Bem a energia neste Continente, como em todas partes, mas eu falo desse Continente, é uma variável estratégica fundamental para o desenvolvimento, é uma variável estratégica fundamental para a integração regional. As pessoas se desesperam pensando que não há comunicação energética entre os países que tem energia de sobra e não a estão explorando ou estão explorando de maneira deficiente e os países que podem se desenvolver mas não tem energia ou a tem a custos insuportáveis. Portanto é uma variável estratégica fundamental para a integração regional, fundamental, se não se perder tempo nos investimentos necessários para extrair ou desenvolver os recursos energéticos, e é uma variável estratégica fundamental para a relevância internacional ou seja para a paz. América Latina não é uma ameaça é menos relevante no novo mundo em que vivemos e provavelmente sua relevância deveria provir de que não é uma ameaça mas sim sabe o quê fazer com as suas próprias forças com os seus próprios recursos. Há uma questão, uma interrogante, que dirijo às pessoas que tem o pensamento mais próximo ao meu, e que pertencem a minha tribu, a esquerda. A poupança pública, no horizonte previsível, ou seja o Estado, não terá capacidade para desenvolver-se, cumprir a sua função, além disso, de que funciona a justiça, a segurança, educaçao básica e a saúde básica. Não terá economia para desenvolver as infra-estruturas de que necessita América Latina. Então precisará recorrer à pupanca disponível , onde quer que esteja, essa poupança disponível, é dinheiro privado. Afunção do Estado será e continuará sendo sempre regulatória. Portanto deverá ser atraente para a poupança privada com marco regulatório que torne viáveis os projetos de investimentos em infra-estrutura. Resignar-se a que não chegue energia às pessoas porque o Estado tem que fazer ou resignar-se a que não haja agua potável porque ideologicamente isto deve ser feito pelo Estado é um erro dramático, é pura ideologização, que nega a capacidade transformadora deste Continente desta região. Estou me extendendo demasiado, mas podem crer, agora. que nos reúne Clinton aqui em Nova Iorque para falar sobre dos desafios da globalização e que eu focalizo as atenções, particularmente, na América Latina. Qual seria o diagnóstico? Eu darei este diagnóstico em duas palavras, não mais democratite, mas democracia sim, no sentido de democracia mais eficiente, mais transparente mais voltada ao serviço dos cidadãos e não a servico dos dirigentes Se não houver as reformas democráticas de que a América Latina precisa, sejam quais forem as reformas econômicas, serão virtuais mas não reais, serão para livros de texto e não serão para a aplicação em cada um dos países da região e é preciso mais desenvolvimento. Não há nos países do sudeste asiático, que estão explorando em termos de desenvolvimento, mais condições para o desenvolvimento que na América Latina. Há menos. A China tem que comprar a maior parte da energia de que precisa fora e certamente o está fazendo e o faz a 25 e a 30 anos de prazo. E não somente não podemos criticar, é uma bendição que resolvam, pelo menos, o problema de um quarto da humanidade. E dentro de 10 anos, como há 15 anos vimos os japoneses, tirando fotografias por todos os cantos do mundo, em dez anos começaremos a ver chineses e a única diferença é que são muitos mais. Assim que haverá milhões de chineses com essas maquinazinhas saindo por dezenas de milhares de hotéis, dos elevadores de hotéis, e serão grandes consumidores do mercado global, não somente do mercado interno. Portanto não me assusta esse fenómemo, pelo contrário, bem-vindos, mas se eles podem fazê-lo por que é que a América Latina não pode. Se partem de uma posição mais baixa, qual é o motivo para que a América Latina não dispare, não se desenvolva, não sustente o desenvolvimento. As políticas precisam estar voltadas para favorecer o investimento e o emprego. Uma coisa é dizer e outra coisa é fazer uma reforma fiscal que contradiz as necessidades de investimento e emprego. Os políticos precisamos saber que as reformas precisam ter dois objetivos. Primeiro as prioridades nacionais e segundo a arrecadação. Se o objetivo é primeiro arrecadar e depois o restante podemos incorrer em terríveis contradições, que pare a capacidade investidora e a geração de empregos, como primeiro objetivo, e segundo, a infra-estrutura fisica e humana , capital físico e capital humano, podemos dizer. Para o capital físico o Estado não tem dinheiro e não o terá. América Latina não precisa o capital privado com esforço político com marco regulamentador razoável. Digamos que o investimento produza o desenvolvimento da infra-estrutura senão não irá chegar e atender a principal variável estratégica , eu falava antes da energia , a principal variável estratégica para o desenvolvimento são os seres humanos, são os homens, mulheres da América Latina. Quando eu vejo que no Equador, 25% da população, justamente dentro da faixa de menos de menos 35 anos, saiu do país, em 4 anos e meio, eu acho que não apenas é um êxodo biblíco, senão é um problema de hemorragia de capital humano de dificil recuperação e levando esse êxodo bíblico ao meu país, pensaria, diria e já disse é como se entre 2000 e 2005, 8 milhões e meio de espanhóis e espanholas de menos de 35 anos tivessem saído do meu país. Portanto o capital humano, a variável estratégica, fundamental, os homens e mulheres são os que precisam ter atenção principal e especial dos políticos porque disso sim é que depende a médio e longo prazo o desenvolvimento sustentável da América Latina. Qual é a conclusão? Alguns diriam que é pessimista outros que é otimista Eu sou um otimista, mas continuo sendo otimista, tenho o castigo de pensar que as vezes vemos mas não temos vontade de fazê-lo e comprovo, com muita freqüência, que há muita gente que vê o que estou dizendo, como eu vejo, tem a oportunidade de fazê-lo e não o fazem. Eu gostaria, de pelo menos, ajudar a convencer os que tem a responsabilidade de que o façam, de que está em suas mãos fazê-lo e entre todos podemos fazê-lo. Muito obrigado