Gazeta Mercantil
Monterrey (México), 13 de janeiro de 2004Ainda não se
chegou a um acordo sobre a declaração final que deverá ser subscrita hoje, por
todos os governantes de 34 países das Américas (menos o cubano Fidel Castro),
por causa de diferenças em relação a quatro pontos, entre os quais uma cláusula
de exclusão por corrupção, defendida pelos EUA, que irritou algumas delegações
latino-americanas.
Segundo a Agência Brasil, não houve acordo nas cláusulas que
dizem respeito à Alca (Área de Livre Comercio das Américas) e a exclusão de
países envolvidos em corrupção. Todos os parágrafos da declaração só podem ser
fechados caso haja unanimidade.
A embaixadora Vera Pedrosa, que acompanha a missão
brasileira, diz que o Brasil tem o compromisso de não mencionar datas nos
acordos, para evitar que não sejam cumpridos. Ela destacou que Lula só aceitou
que houvesse a realização de uma Cúpula Extraordinária se houvesse um motivo
específico "a Cúpula Extraordinária não aconteceria, caso um dos 34 países
discordasse e o motivo visto pelo presidente Lula foi a discussão em torno de
questões sociais. A Alca não estava na agenda do encontro e por isso o
presidente Lula entende que não deve ser incluída na declaração", disse a
embaixadora.
Corrupção no setor privado
Até ontem à noite, os países ainda discutiam a inclusão no
documento de uma referência genérica à Alca. A Venezuela tem-se mostrado
contrária a esse ponto. Já o presidente mexicano, Vicente Fox, tem dito ser
totalmente favorável à criação do bloco. O Brasil proporá o combate à corrupção
no setor privado, item que foi de longa negociação entre os países. Dessa
forma, o Brasil manifesta preocupação com atividades ilegais e fraudulentas que
afetam os países em desenvolvimento.
Os EUA desenvolveram um grande esforço para colocar no
centro das discussões da Cúpula das Américas as questões comerciais e sanções
contra governos considerados corruptos. Representantes dos EUA insistiram que
os líderes presentes aceitem o prazo de janeiro de 2005, para a conclusão de um
acordo de livre comércio (Alca) entre os países do continente.
"As relações entre os países nunca são totalmente
convenientes, sempre surgem desacordos, dificuldades, mas isso é normal",
reconheceu no domingo o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos
(OEA), César Gaviria. O próprio Fox disse na semana que a proposta migratória
ficara "abaixo da expectativa". Além disso, Brasil, Argentina e Venezuela
tiveram atritos com o governo Bush nas últimas semanas. No geral, o documento
tem forte tom de defesa de temas sociais, e assinala que os países americanos
se guiam pela necessidade de trabalhar juntos para "promover a prosperidade, a
inclusão social, uma distribuição mais igualitária do crescimento econômico,
eliminar a fome e elevar os níveis de vida", entre outras metas.
Dois dos três capítulos da chamada "Declaração de Nuevo
León" (estado mexicano onde fica Monterrey) são "crescimento econômico com
igualdade" e "desenvolvimento social".
Outro, sobre "governabilidade democrática", também destaca a
necessidade de melhorar as condições de vida no continente. Um dos pontos desse
capítulo resume a finalidade desta cúpula convocada de forma extraordinária,
entre outras razões, por causa da instabilidade social sofrida nos últimos
meses por vários países do continente. "A justiça social e a redução da pobreza
contribuem para a estabilidade democrática e a segurança dos nossos Estados e
da região. Reiteramos que entre as principais causas da instabilidade na região
estão a pobreza e a exclusão social, que precisamos enfrentar de forma
urgente", diz o texto.
No documento final, deve ser incluído um chamamento aos
credores, para colaborar no "alívio da dívida", para ajudar os países em suas
reformas econômicas e na redução da pobreza.
Além disso, os países reconhecerão a necessidade de reforçar
os mecanismos da Organização dos Estados Americanos (OEA) para lutar contra a
pobreza. |