Folha de São Paulo
Monterrey (México), 13 de janeiro de 2004O governo dos Estados Unidos veta, indiretamente, uma das
teses mais caras a Luiz Inácio Lula da Silva: taxar o comércio internacional de
armas, como forma de obter recursos para um fundo de combate à pobreza e de
atendimento às situações de emergência nos países americanos.
O fundo até já foi criado, mas não recebeu nenhum centavo
até agora. Para a Cúpula Extraordinária das Américas, que se encerra hoje em
Monterrey, a Venezuela propôs uma modesta menção ao fundo. Os governantes
diriam: "Tomamos nota" (da criação do fundo). Nem assim superou o veto
norte-americano.
Os diplomatas dos EUA alegam que a ata constitutiva do fundo
diz que ele será financiado, entre outras fontes, pela taxação do comércio
internacional de armas.
O veto acaba incidindo, indiretamente, sobre a posição de
Lula. Foi exatamente a taxação do comércio de armas que Lula sugeriu, em
discurso na reunião do G8 ampliado, no ano passado, como fonte de financiamento
para o fundo internacional de combate à pobreza, por ele proposto.
Sem consenso
O fundo de emergência é um dos quatro assuntos sobre os
quais os negociadores não conseguiram consenso para terminarem, eles próprios,
a redação da Declaração de Novo León (o Estado no qual fica Monterrey).
Acabaram deixando para os presidentes a tentativa de superar
impasses, que, a rigor, nem são fundamentais.
Um dos itens em que há divergência entre Brasil e EUA é
sobre redução dos custos que incidem sobre remessas de emigrantes para seus
países de origem.
O Brasil concorda e até propôs a redação a ser dada ao
parágrafo relativo ao texto. Mas discorda da menção a uma data (2008) para que
estivessem em vigor mecanismos menos restritivos.
Um terceiro impasse está na chamada cláusula anticorrupção,
uma proposta norte-americana pela qual países tidos como corruptos seriam
afastados da OEA (Organização dos Estados Americanos). Nesse caso, não há um
conflito Brasil/EUA, mas o veto de 31 dos 34 países da cúpula (exceto Canadá,
El Salvador e, obviamente, Estados Unidos).
Há, no documento já aprovado, menções à corrupção, tanto do
setor privado como do setor público, mas não à cláusula de exclusão, conforme a
Folha já antecipou ontem.
Sempre Alca
Por fim, manteve-se a já antiga pendência Brasil/Estados
Unidos sobre a Alca (Área de Livre Comércio das Américas).
Quando foi convidado para a cúpula, pela qual o governo
brasileiro não tinha muita simpatia, Lula condicionou a aceitação à exclusão do
tema Alca da agenda. É assunto que está sendo tratado mais adequadamente em
outro foro (as reuniões ministeriais), acha o governo brasileiro.
Aceitou depois que se fizesse uma menção apenas genérica.
Mas a delegação norte-americana quis "abrir mais um pouco" o texto. Foi vetado
pelo Brasil e também pela Venezuela, que não aceita menção alguma à Alca.
(CLÓVIS ROSSI) |