Fuente: Jornal O Globo
January 12, 2004
Opresidente Luiz Inácio Lula da Silva fará um discurso amanhã, último dia da
Cúpula Extraordinária das Américas, que começa hoje e reúne 34 chefes de Estado
do continente americano (com exceção de Cuba) em Monterrey, no México,
convocando seus colegas a tomarem medidas para reduzir a pobreza na América
Latina. Lula -— que tem o apoio de outros países, inclusive dos Estados Unidos,
nessa questão —- usará o argumento de que os índices de pobreza e indigência só
aumentaram na região.
Segundo fontes ligadas ao Palácio do Planalto, Lula quer se desviar das
pressões dos americanos, que forçam a inclusão de temas complexos na agenda,
como a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). O presidente brasileiro quer
dar ênfase a pontos sociais, com prioridade para o desenvolvimento econômico da
região.
Bush quer discutir Alca, Brasil é contra
Dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) mostram
que, desde 1997, 220 milhões de latino-americanos vivem na pobreza e na
indigência. Os países em melhores condições são Chile, República Dominicana,
Uruguai, México e Brasil. A situação é pior em Bolívia, Honduras, Colômbia e
Guatemala.
— A redução da pobreza, o desenvolvimento social e a governabilidade
democrática são pontos importantes para nós e os demais países da região —
disse o embaixador dos EUA na Organização dos Estados Americanos (OEA), John
Maiston.
Mas a declaração de Maiston não ameniza o clima tenso entre Brasil e EUA.
George W. Bush chega hoje a Monterrey disposto a incluir na agenda do encontro
um tema delicado, a Alca, cuja discussão foi temporariamente suspensa com o
consenso obtido numa reunião ministerial em Miami, no fim do ano passado. Para
o Brasil, Monterrey não é o fórum adequado.
O presidente americano também quer incluir uma cláusula no documento final
da cúpula determinando a expulsão da OEA de um país cujo governo for
comprovadamente corrupto.
— Essa proposta encontra forte resistência de muitos países, inclusive do
Brasil. Nenhum país é contra reforçar os mecanismos hemisféricos para o combate
à corrupção, mas a proposta americana é por demais vaga — comentou o
coordenador-geral de Mecanismos Políticos Multilaterais do Itamaraty, João
Carlos Parkinson de Castro.
A chegada do presidente brasileiro a Monterrey está prevista para as 5h da
manhã (9h de Brasília) de hoje. Lula terá encontros bilaterais com os
presidentes mexicano, Vicente Fox, e do Peru, Alejandro Toledo. Mas a reunião
mais esperada acontecerá à noite, com Bush, duas horas depois de aberta a
Cúpula das Américas. Além de temas gerais, um assunto que não deverá faltar
serão as recentes medidas de controle alfandegário no ingresso de turistas no
Brasil e nos EUA.
Amanhã, Lula se reunirá com outros presidentes, entre os quais o da
Colômbia, Alvaro Uribe. Segundo o assessor para Assuntos Internacionais da
Presidência, Marco Aurélio Garcia, os encontros bilaterais serão da máxima
importância para Lula. Os chefes de Estado ficarão hospedados no Hotel Quinta
Real. Já a reunião de presidentes ocorrerá no centro de convenções, cujo nome
não poderia mais adequado: Arena de Monterrey.
Protesto reúne mil manifestantes
Os protestos em Monterrey começaram ontem pelo Greenpeace, que acusou os EUA
de tentarem impor uma agenda política a um encontro pautado por questões
sociais. Cercados por policiais, eles levaram para o Centro da cidade um cartaz
que dizia: “A mudança climática é uma arma de destruição em massa” — uma
referência à busca de armas no Iraque pelos EUA.
Cerca de dois mil ativistas de organizações não-governamentais de todo o
México foram para Monterrey. Ontem, aproximadamente mil pessoas fizeram uma
marcha contra a cúpula, convocada por partidos de esquerda. A polícia recebeu
reforços de agentes federais |